Adoro escrever. Adoro deixar a caneta deslizar no papel ao ritmo dos meus sentimentos. Ou de tamborear os dedos pelas teclas do PC ao som do bater do meu coração. Adoro escrever aqueles textos profundos, cheios de segredos nas entrelinhas, repleto de palavras profundas, de frases feitas sobre o abstracto. Adoro tudo isso e adorava fazer tudo isso. Mas não posso. Para quem escreveria? O que diria? O que sinto cá dentro para transmitir para as linhas de um texto? Não sei. Não sei nada. Não há ninguém. Meu coração sofre na solidão. Minhas lágrimas nascem no silêncio e escorrem perante a escuridão. Nada disto muda. Nada disto acaba. E quando penso que posso minimizar por uns instantes tudo isso... Tudo cresce, tudo aumenta.
Gostava de escrever textos de amor, cheios de felicidade, de carinho, e tudo mais. Mas nada disso existe. Já não sei que isso é. Tudo morreu.
Sinto um nó na garganta. Sinto minha garganta apertada. Sinto-me asfixiada pela minha própria dor. Dói, dói muito. Parece que minhas caixa toraxica contrai, me aperta e não me quer libertar. E tudo o que está lá dentro quer sair mas, no estreito da minha garganta fica preso e dali não saí. E é aí que me sufoca. É aí que, com o aperto, os pozinhos mágicos das lágrimas se libertam das palavras, e se manifestam nos meus olhos. Elas nascem. Afogam meu olhar. Tornam-no turbo. E depois, tal como tudo, vão embora. Por um caminho curto mas rápido e breve, e desaparecem.
Minha vida é como meus olhos. Inúmeras lágrimas surgem, e afogam-me. Mas um dia, ofuscam-me e decidem ir embora, deixando-me e partindo. Partindo de repente, sem olhar para trás e desaparecem no vazio que deixam.
Tenho saudades. Saudades do sorriso, saudades das lágrimas de felicidade, das cambalhotas enérgicas na barriga, dos sonhos mágicos, das palavras que tão facilmente nascem em meu peito e que expulso com tanta leveza pela boca. Saudades de me sentir preenchida. Saudades do carinho, da preocupação, da pessoa presente, da companhia pelo caminho que ainda tenho que percorrer. Saudades daquilo que, de alguma forma já tive, mas que desapareceu por entre meus dedos.
Isto faz-me lembrar o mar imenso que não tem seu fim invisível, tal como a minha vida. E sempre que o tento agarrar com a minha mão, a água escapa-se por entre meus dedos e escorre por meu braço. O que escapa por entre os dedos são aquelas pessoas que surgem mas que rapidamente se vão embora, e as gotas que escorrem são aquelas pessoas que, de alguma certa forma, fizeram parte da minha vida durante um determinado espaço de tempo mas que, tal como as outras, acabam por desaparecer.
Minha vida é apenas mais uma vida. Não há verdadeira vida nela. Não há alegria em vivê-la, nem tão pouco vontade para isso.
Queria poder dizer muito mais, mas há tantas palavras e tão poucas formas de definir o que sinto. Elas não chegam. Elas são insuficientes. Ou eu é que sou insuficientemente capaz de agarrá-las e ordená-las de uma forma a dizer o que sinto, queimar o que me queima, e esquecer o que nas chamas desapareceu....